quinta-feira, 5 de março de 2009

Cárcere

A mente é um cárcere. Logo, o que ou quem sou eu?

Não é preciso ir muito longe, ou dificultar, apenas tenho plena consciência de que este deve ser o texto mais pessoal, a crônica mais “minha” que se possa classificar. Ao longo do que tentarei propor, aos que se sentirem impulsionados a ler ou quem sabe em sentimento de comungar com algo escrito, desde já obrigado.

Quando digo que a mente é um cárcere é porque ela em sua totalidade o é. É uma guerra constante essa a minha contra mim mesmo, aprender a dizer “não”, tentar fazer diferença, tentar não fazer eclodir o que o corpo quer expor como num golpe de chamar a atenção. Ela, cheia de normas, regras, padrões e ao mesmo tempo cheia de anarquias, hedonismos, omite e mente tentando me fazer crer que por mais que dela fuja, ainda vai estar ali, pois a partir do momento em que me dou conta dessa fuga, percebo que a própria fuga é vã, pois ela brotou do lugar que eu mais tenho falta de controle.

Por esses dias eu pensei estar seguindo uma evolução, pensei ser criador de alguma metanóia, que a começar por mim, pudesse impactar e fazer dar meia volta na mente das pessoas. Até que me dei conta de que essa evolução de nada tinha a ver com o alvo que eu dizia seguir. A cada dia que passa descubro potencialidades dessa máquina chamada “mente”, a cada dia eu percebo que ela pode criar e destruir, e isso pode ser tão envolvente e belo, fascinante de observar, transformando o foco em algo supérfluo, apenas mais uma boa filosofia.

Recentemente, comprei um livro de Hannah Arendt, “A Condição Humana”, e algumas passagens me marcaram bastante, como:

O problema da natureza humana, a questão que me tornei para mim mesmo, de Agostinho, parece insolúvel, tanto no sentido psicológico como em seu sentido filosófico geral. É altamente improvável, determinar e definir a essência natural de todas as coisas que nos rodeiam e que não somos venhamos a ser capazes de fazer o mesmo a nosso respeito: seria como pular sobre nossa própria sombra. Além disto, nada nos autoriza a presumir que o homem tenha uma natureza ou essência no mesmo sentido em que as outras coisas têm. Em outras palavras, se temos uma natureza ou essência, então certamente só um deus pode conhecê-la e defini-la; e a prévia é que ele possa falar de um “quem” como se fosse um “quê” [...] A diferença entre guerra e a paz: tal como a guerra ocorre em benefício da paz, também todo tipo de atividade, até mesmo o processo do mero pensamento, deve culminar na absoluta quietude da contemplação. Todo movimento, os movimentos corpo e alma, bem como o discurso e o raciocíno, devem cessar diante da verdade. Esta, seja a antiga verdade do ser ou a verdade cristã do Deus vivo, só pode revelar-se em meio à completa quietude humana.

...

É complicado tentar expor a fé no contexto da razão, sendo a mesma colocada apenas no que diz respeito ao “crer” ou ao “sentir”. É complicado tentar expor a fé enquanto um foco racional, de crítica, de liberdade, logo eu tenho fé de que errei, tenho fé de que me afastei do alvo. Não pelo simples fato de ter feito coisas que colocaram em dúvida a minha crença, mas colocaram em dúvida a minha crença no sentido de que sou um completo dependente da graça divina.

Portanto o próprio Deus me dá essa oportunidade de arrependimento mediante a fé (que por si só é uma forma de racionalidade) em testemunhar da minha tentativa de seguir retos caminhos, e, finalmente fazer jus ao que digo ser e nasci para fazer que seja louvar a Deus, espalhar suas boas novas por onde eu andar, ser luz e sal. Luz para iluminar o caminho daqueles que não sabem bem por onde andam e como encontrar o Pai, e Sal para dar um gosto diferente a toda essa mesmice em que estou inserido e que desde o começo do ano fazia parte e não havia me dado conta.

Tudo isso porque Cristo é o principio e o fim, por Ele e para Ele, e, somente através Dele se pode chegar ao Deus vivo.

Não fui aquilo que digo ser, com atitudes e palavras, peço perdão a quem me fez no ventre da minha mãe, que conhece cada pedaço meu, peço perdão aos meus amigos por não cumprir a missão do IDE deixada por Cristo. Não é fácil segui-lo, não é simples defender um ideal e dizer “não” a si mesmo o tempo todo em prol de algo que pra muitos é mera contemplação.

Só posso concluir com um trecho de Mateus capítulo 6, versículos 25 à 34:

25- Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?

26- Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?

27- E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

28- E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

29- E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.

30- Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

31- Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?

32- (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;

33- Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

34- Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

...

Paz a todos e obrigado aos que quiserem dar um novo voto de confiança!

4 comentários:

Juliane Oliveira disse...

é um texto pensado e escrito. e nao escrito pra fazer os outros pensarem

¬¬

Mara disse...

Desculpa a minha ignorância, mas não consegui entender pq a mente é um cárcere, pra mim a mente é liberdade, o único local em que podemos usufruir de absoluta liberdade.
Linda a passagem bíblica do final. A busca de Deus deve ocorrer primeito intimamente, no pensamento, e depois nos atos, do contrario, se contradizem.

Paz Buda.
beijos, beijos.

[M]. Cartágenes disse...

A mente é um cárcere, porque ela oferece mundos e fundos, fazendo assim correr o risco de perder o foco. E qual seria o foco? O meu foco é Cristo, mas isso vai de pessoa para pessoa! O texto se refere a mim, portanto é a minha mente que é um cárcere! De tão libertária que ela é, que acabou por me aprisionar em algum conceito ou filosofia ou modo de tentar trazer conhecimento novo, tanto aos outros como a mim. E mal percebia que esse novo conhecimento me afastava do meu foco me fazendo esquecer para qual propósito e fui criado. Entende?

Valeu o comentário, paz!

Mara disse...

Agora entendi ;)