sábado, 20 de março de 2010

Filósofo de janela de ônibus

A gente tá junto faz pouco tempo, mas já começo a decorar suas cicatrzes, gestos, olhares, timbres e tons da voz. Já começo a saborear assim que acordo o pouco tempo que terei em sua companhia porque é bom ter alguém por perto quando o resto ao redor é sem valor e por demais igual. Ela é meio amórfica, no sentido de que todos os dias assume ser quem quer ser sem deixar de ser autentica e altruísta. Sou péssimo com datas, lembrete de aniversários e tudo mais, nem mesmo quando demos o primeiro beijo eu me lembro. É certo que mulheres se ligam nisso, mesmo aquelas que dizem pouco se importar dão um extremo valor a caras malandros que se valem desses mínimos detalhes... Eu particularmente digo que não presto, muito menos quero, mas mesmo assim ela insiste em gostar de mim.

Sei lá como dizer isso, eu sou um problema, sou intenso e sereno demais ao mesmo tempo, odeio que invadam meu espaço, mas gosto de ser tocado, de ser lembrado. Detesto que fiquem no meu pé ou me ligando toda hora ou que exijam algo como “satisfação”. Tenho minha mente livre, meu espírito descompromissado até comigo mesmo, meu único compromisso é com a causa de Deus. Ele pra mim é o bem maior que não tem pra onde correr nem como se esquivar.

Pois bem, acho que estamos juntos tem mais ou menos uns três meses. Para o meu espanto, porque não sou dos que tem muito sucesso nessa área da vida. Costumo dizer que as mulheres para se aproximarem de mim tem que serem corajosas. Não sou dos mais delicados mesmo sendo um poço de sensibilidade, no entanto não sei nem por onde demonstrar meus detalhes e minúcias.

A gente se conheceu do modo mais cavernoso possível: estava eu em toda a minha gordice em um pseudo-congresso, ela de São Paulo em viagem com as amigas e eu bebendo tudo que podia e meu dinheiro pagasse curtindo esse tal pseudo-congresso que me rendeu muitas histórias. Ela não é nem bonita nem feia, nem, normal tampouco convencional, é apenas ela mesma. Contrariando as possibilidades, tem o melhor beijo que já pude sentir, tem bochechas grandes e lábios pequenos e finos (se opondo a minha preferência por bocas grandes).

Ela não tem muita coisa de especial, mas mesmo assim me senti bem pra caramba. Pensei depois que tudo isso poderia ser ilusório, “logo eu, já tão acostumado a ser e estar sozinho”, disse em secreto. A gente quando tá sozinho consegue ver muita coisa, sentir outras tantas. Quem tá de fora enxerga melhor do que quem tá dentro, opina melhor ou simplesmente guarda para si os ensinamentos e aprendizados dessa coisa desgarrada e sem graça chamada “vida”.

Já sabia que ela prefere Skol e eu Antártica, já sabia que ela era louca pelo meu sotaque e eu pelo jeito dela como se não estivesse nem aí pra mim, até porque eu era do mesmo jeito. No fundo nós gostamos sim um do outro, apenas de forma própria e bastante pessoal. Por não ter dos melhores históricos, desconfiei logo de primeira que ela poderia estar de putaria para cima de mim. Porém, pensei depois, “o que uma pessoa, ou, porque uma pessoa perderia seu tempo fazendo escrotice comigo?”... Como se eu fosse especial pra pensar algo do tipo.

Mas sabe, ela quando deita no meu ombro, quando ronrona palavras que não são possíveis de serem compreendidas, quando me liga de madrugada pra dizer que sente minha falta, que tolera meu jeito irritado de ser em colocar como “ponto final” em tudo que é frase o tal “porra” ou “caralho”. Ela parece que desceu do céu apoiada nas mãos do próprio Deus, com anjinhos cantando “ohhhhhhhh!”. Um absurdo isso!

Ela tem a capacidade de entrar no meu mesmo clima só de olhar nos meus olhos, de sentir no meu tom de voz e puxões por sua cintura o que se passa na minha cabeça, no meu peito, nos meus dias, nos meus estresses e implicâncias solitárias. Ela sabe que eu gosto dos detalhes, ela sabe que eu gosto de toques involuntários sem pedidos de “desculpa” em seguida, ela sabe que por eu ser um misto de tempestade desnecessária e calmaria necessária acabo por ser por demais interessantes aos olhos curiosos e prontos para aventuras constantes. Ela sabe que amo nucas, cabelos lisos com corte curto e mais ainda da minha reverência os cachos, que gosto de pele bem branca, que gosto de beber muita cerveja toda sexta à noite, que adoro dormir nu, que tenho um espírito hedonista relutante diante de um espírito também insistente nas causas divinas.

No geral ela sabe como e quem eu sou, sabe por que gostar e me odiar ao mesmo tempo, sabe que eu gosto de sexo a qualquer momento, que gosto de literaturas confrontantes e desafiadores para com os valores e prioridades inerentes a cada ser humano. Ela sabe que não me importo com minha barba desleixada, que gosto de cheiros, de conhecer familiares e estar mudo diante deles respondendo apenas com um olhar ou levantar de sobrancelhas. Apenas, ela sabe...

Mas quer saber a parte divertida? Ela não existe! É apenas mera ficção e invenção dos meus dias cheios de fábula. Todo o contexto faz parte de um plano sem futuro, apenas de extremo stress e suscetibilidade a boas experiências e pessoas corajosas, interessantes o suficiente para se tornarem como ela. E aí, quem vai encarar?

5 comentários:

Mary Carvalho disse...

Como assim ela não existe?? E eu pensando que ia sair uma história surpreendente disso tudo... Que ilusão.

Até...

Jesilene Corrêa disse...

Ainda não tinha te dito, mas sempre que posso venho aqui e leio teus posts..
Entre um e outro texto, eu me vejo.

"Sei lá como dizer isso, eu sou um problema, sou intenso e sereno demais ao mesmo tempo, odeio que invadam meu espaço, mas gosto de ser tocado, de ser lembrado. Detesto que fiquem no meu pé ou me ligando toda hora ou que exijam algo como “satisfação”. Tenho minha mente livre, meu espírito descompromissado até comigo mesmo, meu único compromisso é com a causa de Deus. Ele pra mim é o bem maior que não tem pra onde correr nem como se esquivar."

Ah, amo pele BEM branca também ahuhhua

Bons textos. ;D

Impulsiva disse...

Fui lendo, lendo, lendo seu texto e me deliciando com cada frase, me assustando com tamanha sinceridade, quando me deparei com esta:
"que tenho um espírito hedonista relutante diante de um espírito também insistente nas causas divinas."

Eu já havia observado, por já te ler em outros posts, essa sua certa "incoerência", se é que podemos chamar assim. Desculpe a invasão e o comentário com cuja opinião vc nem pediu, rsrs. Mas é que foi justamente nesta sua guerra interior que achei uma certa identificação comigo.

Quanto à sua garota imaginária, embora seja meio frustrante ao final saber que ela não existe, foi muito gostoso ler vc descrevê-la...quem sabe ela não esteja por aí exatamente assim??

Beijos e ótima semana...

Ғεяηαηδιηђα ♥ disse...

Eh claro q ela não existe!
Eu já tava até me assustando de ver vc falar assim de alguém...
Entre uma coisa e outra sempre há defeitos e eu sei que você nunca encontrou uma garota q fosse digna de tal dedicação...

O que importa é que apesar de não parecer você é um cara perseverante e vai acabar encontrando essa garota mais cedo ou mais tarde.

Tbm fantasio algumas coisas assim de vez em qnd, nisso somos até parecidos, a diferença é que eu não sei botar pra fora com tanta desenvoltura.

Te adoro, beijos.

Prato do Dia disse...

Talvez essa garota seja eu.
Que tal?
hahahaha