domingo, 1 de agosto de 2010

O aconchego mora entre os pulmões

Uma vez eu tava no cinema e vi dois velhinhos entrando na sessão de mãos dadas. Achei a coisa mais linda do mundo e desejo que um dia o mesmo possa acontecer comigo”, disse minha amada amiga @De_Almanaque durante um longo bate-papo num barzinho próximo a sua casa. Nesse momento lembrei-me dum trecho de Meditação, do Jobim. Já deu pra sacar que tudo eu ligo a música. Acredito que ela seja uma das criações mais divinas das existentes, e, que melhor é possível comunicar-se.

Quem, no coração
Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder
E, na solidão
Procurou um caminho e seguiu,
Já descrente de um dia feliz

[...]

Orgulho-me de verdade que no meu primeiro namoro, o primeiro beijo dado na moça foi quando eu fiz o pedido de compromisso sério. Atualmente o mesmo relativismo que outrora foi lâmpada na mente alheia, dá espaço para opiniões e contextos vazios tudo em prol do hedonismo e do bem-estar momentâneo. Não to posando de puritano porque é uma coisa da qual não desejo ser nunca, mas, certas coisas precisam de uma base forte de um pouco de tradicionalismo para que costumes sejam mantidos. Existe beleza, sim, nisso tudo!

Meu amor, meu amor, nunca te ausentes de mim. Para que eu viva em paz, para que eu não sofra mais...”, incansavelmente se repete essa estrofe de Sem Você do Chico com Jobim, na minha cabeça... Faz todo o sentido. O contexto da música é de entrega, mas também de independência. Na verdade tá mais pra interdependência com pitadas de aceitação, sinceridade e cumplicidade. Não faz sentido não ser se não for dessa forma. Certas coisas ainda pedem um pouco do requinte dos velhos costumes... Ela me contava toda emocionada como os avós se conheceram. A típica história romântica de amor à primeira vista que eu já conheci também.

@De_Almanaque não é das pessoas mais pacientes ou fofas, nesse aspecto eu sou igual a ela. Para pessoas como nós é preferível que seja dito “porra”, “caralho”, “vá para a puta que te pariu” do que um simples e singelo “merda”. Carinho e qualquer forma de suavidade são para a intimidade. Por isso o teor da conversa foi de extrema gostosura e sinceridade. No entanto, ela reserva uma quantidade de beleza que me intriga toda vez que converso ou a vejo. Mesmo que sejamos apenas amigos, é inevitável que eu enquanto homem hétero não a veja como um ótimo partido e um tremendo desperdício de mulher em estar sozinha.

Veio à lembrança a história dos meus pais também. Nessas horas eu vejo o quanto eu e meu pai somos parecidos. Ele é sisudo, silencioso, reservado, curto e grosso no ponto de vista e projeta cuidado zelo e ternura somente a quem consegue conquistar sua confiança. Meu pai era estudante do curso de edificações na antiga Escola Técnica (atual IFMA) e minha mãe do Colégio Batista Daniel de La Touche. Meu pai morava no centro de São Luís e minha mãe no Renascença (na época o Renascença era um grande conjunto de terra batida com acessibilidade intragável). Ao contrário do senso comum, minha mãe foi quem “chegou junto”. Ela o encarava nos olhos todos os dias. Meu pai de pé todas as manhãs no ponto do transporte coletivo e minha mãe dentro do ônibus indo para a escola.

Até que um belo dia meu pai incomodado resolveu tirar a prova a curiosidade se era uma brincadeira de mau gosto ou não, atrasou-se de propósito. Pro seu espanto estava lá, de pé, sozinha no ponto debaixo do sol minha mãe esperando meu pai. Os dois seguiram seu destino no mesmo transporte calados, meu pai, mais que de costume dentro do seu individualismo.

Em um dia qualquer meu pai desce do ônibus debaixo duma chuva torrencial e para se proteger usou alguns de seus projetos de planta baixa como guarda-chuva. De surpresa, nesse instante minha mãe aparece ao seu lado e pergunta “Queres uma ajuda?” enquanto segurava um guarda-chuva. Meu pai apenas sorriu com o canto da boca como quem diz “Tudo bem” (eu faria a mesma coisa, exatamente igual). Daí, o tempo foi passando até se chegar onde estamos e eu nascer em 1987 de parto cesário.

O falecido avô de @De_Almanaque era muito mais novo que a esposa. A avó dela era de uma família bem pobre e ainda muito nova foi para Caxias onde ficou como protegida de uma outra família. Lá, foi trabalhar como faxineira e teve a oportunidade de frequentar a escola (a única de toda a sua família biológica a conseguir se alfabetizar). Quando terminara o científico (atual ensino médio) foi-se para outro município do interior do estado do Maranhão a fim de tentar lecionar. Nessa ida o avô de @De_Almanaque, que ainda era estudante, viu aquela professorinha e ficou doido... Amor à primeira vista. O único amor de ambos os casais aqui citados, cada um com seus graves defeitos que não merecem serem ditos, apenas serem enxergados como formas de aprendizado e ver a vida como algo mais bonito.

Hoje se conhece o “amor de sua vida” numa balada, durante inúmeros relacionamentos relâmpagos mais conhecidos como “ficar”. “É preciso testar antes de saber se é pra acontecer algo sério a longo prazo”, dizem alguns conhecidos meus. Mais uma vez eu digo aqui, me orgulho de que no meu primeiro namoro o primeiro beijo tenha sido dado quando o pedido de namoro foi feito. Certas coisas precisam preservar doçura, singeleza e leveza no agir, ser, sentir para depois entrar em fervor.

Aí eu me encasqueto e questiono onde eu teria vez numa realidade como essa. Não to me colocando como o especial, apenas que esse é o tipo de coisa a qual prezo. Já disse por aqui que sou um puto nato, não tenho jeito pra muita coisa, mas ainda me dou o trabalho de reservar requintes de bom moço. Qualquer um, independente de quem seja, anseiam um par. Cada um a sua maneira de ser e tratamento anseiam que alguma forma de beleza faça parte de suas vidas para terem uma história ou algo que contar. Sem falso romantismo, aquele que é idealizador e sonhador, é bom querer colocar-se em estado de exclusividade e querer exclusividade com qualidade na partilha e troca de vivências.

É, não posso dizer que os valores estão trocados ou deturpados. Não posso impor valores, posso apenas dizer que cada ser tem o valor o qual ele mesmo incube e acha relevante. Os meus são esses... Obrigado pela visita e leitura. Volte sempre!

9 comentários:

Rose disse...

Bela história a dos teus pais. Bom, preserve-se assim, mantendo a singeleza de momentos há tempos banalizados, o mundo precisa disso.

Samanta disse...

Voltei a emocionar. Foi uma ótima noite, e nós dois sabemos da nossa singularidade.
Nem vou mais comentar, tudo já foi dito.=*

Samanta disse...

E adorei o marketing, casando te dou parte do meu dote, ahahaha

[M]. Atahualpa disse...

HAHAHA! Saliente. Casa comigo e tu num vai ter esse problema de dote, vamos ser desprendidos com a vida mesmo e com direito ao mesmo nome como escolha para um possível filho no futuro. Rá! Ora francamente... ^^

deca disse...

Amei o título!!! Marcão sabe usar as palavras quando se fala sobre amor. Falas de um sentimento intenso e frágil. Adorei a história de seus pais e de algumas curiosidades do século passado.
O amor está nas pequenas coisas.
=)

Eliza Barroso disse...

[...] certas coisas precisam de uma base forte de um pouco de tradicionalismo para que costumes sejam mantidos. Existe beleza, sim, nisso tudo!

Sempre houve beleza nisso.

Penso que hoje existe um desleixo muito grande com os relacionamentos, uma puta preguiça de caprichar, e fazer com que o outro perceba o prazer que sente em estar junto.
Pois é moço, parece que algumas pessoas conseguem te emocionar pelo simples jeito de ser. ^^

Inté. Cheiro!

Casa de Mariah disse...

tornou-se tão fácil viver que ficou até complicado. dá para entender!
também me pediram em namoro antes do primeiro beijo. também senti o arrrepio de me pegarem na mão...

Abiodun Akinwole disse...

É um barato como esse lance das coisas de antes e de hoje nos dão tantas coisas pra acreditar que o ser humano é uma árvore em si, no coletivo.


abraço.

Ana Beatriz disse...

A história dos teus pais e do avô de Samanta são cada vez mais raras, fato. Mas a grande questão da dita atualidade é que as pessoas deixam passar as oportunidades por simples capricho, às vezes. Singularidade é uma prerrogativa de cada ser humano. Individualismo demais, é bobagem.