quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A vida como ela precisa ser

Após mais uma dessas conversas sortidas que tenho por aí, comecei a mais uma vez pensar numas coisas aí. A da vez foi com Manoela, uma das estagiárias junto comigo lá no trampo. Ela que já tem 29 anos se vê perdida, sem rumo, numa eterna taquicardia de ansiedade e invalidade para com a própria vida. Viu-se sentir feito uma velha enquanto conversávamos sobre cansaço.

A expressão em si é uma coisa bastante relativa. Obviamente que sim, pois pode se ficar cansado para várias coisas e circunstâncias, como: sexo, fazer esportes, subir escadas, falar, pensar, beber, trabalhar, fazer nada, fazer muito e apenas cansar por cansar.

A gente começou a comparar nossas vidas, e mesmo que eu tenha 22 e ela 29, mesmo tendo experiências de vida totalmente opostas, com extremismos e relativismos bem conflitantes, ela em um único ponto concordou comigo: ambos somos precocemente vividos.

Digo isso porque lá pelos meus 14 anos, eu já bebia vodka pura enquanto assistia aula. Como? Comprava refrigerante em lata, jogava-o fora, lavava a lata, pegava um canudo, enchia a lata de vodka e ia assistir aula. Bodava (desmaiar de bêbado) dentro de sala até começar a babar. Sim, eu nunca fui muito santo, principalmente quando eu e amigos meus quebrávamos vidros de loló dentro do ar-condicionado pra ver negada ligada e chapada rindo de tudo e todos.

Com 17, eu já tava fazendo minhas festinhas regradas a mais uma vez muito álcool, com direito a muita sacanagem. Quartos liberados, às vezes para mais de um casal, para vocês sabem muito bem o quê! Quando não tinha quarto era na frente uns dos outros mesmo no cômodo que fosse da casa.

Sinceramente, não me orgulho de nada disso ao relembrar essas coisas, mas, foram momentos, estados de espírito, necessidades em que o meu próprio hedonismo me pedia para saciar. Se não o fizesse naquele momento, tenho consciência que em outro momento poderia fazer pior. Não me orgulho, mas não ignoro o passado. Não ignoro, pois hoje eu me orgulho do presente, pelo que sou e que serei um dia. Claro que até hoje eu ainda arco com algumas consequências desse passado tosco, libertino e extremamente sincero.

Eu e meus amigos éramos uns rebeldes sem causa, mas nunca deixamos de ser sinceros. Sinceros naquilo que ostentávamos e dizíamos amar. A propósito, esse tal amor era desde então a principal confusão da minha cabeça. Nunca fui muito convencional, sempre sem noção e espalhafatoso, apenas me dava o trabalho de ser eu mesmo e o resto que desse cabo de me suportar. Visão imatura e egoísta dos meus 14 aos 17 anos.

Conversava ainda com Manoela sobre o amor. Ela riu da minha opinião em estar cansado das preliminares, estar estafado desse negócio de jogo de conquista, de charminho aqui e ali, de fazer doce, de convite pra sair, de dar atenção e entrar naquela queda de braço em quem vai ceder primeiro. Hoje, opto em simplesmente chegar junto, dizer que to me interessando, ser objetivo no objetivo e o que tiver de ser vai ser. Sem essa de “ficar”, não tenho mais paciência para casos relâmpagos.

Acredito que pelo fato de já ter feito tanta putaria na minha vida, e de ter absorvido toda ansiedade que minha adolescência e ex-relacionamentos puderam oferecer que hoje desejo somente um canto, um descanso, minhas coisas, minhas contas pagas, um trabalho justo para ter o meu quinhão no fim do mês. Um colo onde possa colocar a cabeça, um ouvido para me ouvir, uma companhia para dividir as coisas da vida e os planos do porvir.

Mas, eu só tenho 22 anos, porque diabos eu tô falando isso. Agora é que é o momento pra se viver, pra se virar bicho, pra agarrar a vida e sair pela noite como louco, como quem quer sugar todo o oxigênio do ambiente e se embebedar com o carbono. Agora é que é o momento de se explorar, de se criticar, de se conhecer e de dar a cara tapa para que a própria vida possa fazer algum sentido. Será mesmo?

Ultimamente tenho observado que tô mais crítico que nunca. Ultimamente me sinto um velho ranzinza, tal como meu amigo Abiodum comentara no texto anterior. Ultimamente me reverencio como um jovem idoso, uma pessoa que só quer um pouco de estabilidade, guardar a adrenalina para algo a dois, entre quatro paredes, em público ou de mãos dadas vendo o pôr do sol na praia.

É como no Poema da Necessidade do Drummond, “é preciso substituir nós todos ; é preciso esquecer tudo; é preciso colher as flores de que rezam velhos autores”. Do mesmo modo pode-se parafrasear o Jobim ao cantar A Felicidade:
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

Recentemente tomei coragem e contei para minha melhor amiga que gosto dela. Da mesma maneira como fora compartilhado com o broto, existe grande diferença entre descobrir que gosta e estar gostando. Não vou entrar em muitos detalhes, mas foi uma conversa muito boa! Ao contrário do que se pode esperar eu não fui com a intenção de pedir uma chance, muito menos ter espaço na vida dela. Essas duas coisas eu sei que já tenho, apenas não do modo que gostaria. No ponto alto da conversa, disse que a confirmação do sentimento racional (e porque deveria ser impulsivo?) veio quando eu tive de intervir em um dos relacionamentos relâmpagos dela.

O cara que ela tava afeiçoada era e é um bosta, tão lerdo que tive de dar uns estalos na mente dele pra ver se ele se tocava e tomava alguma providência. Ela se espantou com essa minha atitude, apenas respondi que antes de qualquer coisa sou amigo dela, mas também não posso ignorar a pessoa que ela é, a mulher que ela representa mesmo com todos os defeitos e ainda mais os que detesto. Não poderia ignorar tudo isso, mas poderia ignorar a situação e saber qual é o meu lugar e comportamento a ter, a imagem e amizade a zelar.

Internamente, é claro, eu tava me contorcendo, mas maturidade emocional deve ser isso né além de mostrar que realmente se gosta de uma pessoa dando a liberdade de escolha para essa pessoa. Dando espaço, ar para respirar, respeitando os limites, diferenças e aceitando colocando- se a disposição para moldar o que tiver de moldar, admoestar o que for necessário e crescer junto como se fosse um só.

Eu sei que em algum momento desses ela lerá esse post, mas sabe de uma coisa, nem me importo. A franqueza entre nós dois é tamanha que mesmo após o pé na bunda, trocamos piada, e mantivemos o mesmo nível de intimidade, bate-papo e liberdade de ir e vir. Pessoas e situações assim são e estão cada vez mais raras, e por serem raras é importantíssimo saber zelar e cultivar esses detalhes!

Minha amiga de trampo, a Manoela, finalmente entendeu e concordou: “Se eu já me sinto cansada beirando os 30, que dirá tu com 22”. Mais um motivo para eu não me envergonhar dos meus 14 aos 17 anos, muito menos dos murros em ponta de faca cega dados nos primeiros namoros, tampouco nos pés na bunda tomados até hoje. Tudo nessa vida é crescer para depois morrer. Dar-se sempre a oportunidade de crescer um pouco mais e viver mais que possível sem se privar dos detalhes, sórdidos ou não!

5 comentários:

Anônimo disse...

nossa, me encanto com a sua sinceridade, com a sua experiencia e como vc ve a vida ao se redor! espero sinceramente q vc consiga exito no seu lado afetivo, sei nem se tenho permissão para dizer isso, mas eu torço para dar tudo certo com vc nesse aspecto, parabéns pelo post, é muito interessante e divertido! juliana

rafael teles disse...

excelente como sempre, Marcão.

Abiodun Akinwole disse...

É, um dia a gente se vê vulgar, outro dia fino e por aí vai.

Seu velho ranzinza mesmo! Oras, você já ouviu uma cambada de vezes minhas angústias. Sabe que o que queremos é bem difícil de alcançar no caos mundial individual e coletivo da mente das pessoas hoje, então hasta la lucha!

Estou numa fase de lutas e numa fase de clímax a respeito do que eu quero projetar na minha vida e ao meu redor, me foco nisso.

Se vai ser ou não legal daqui pra frente, o jeito é viver, né não?

abraço, cumpade!

Eliza Barroso disse...

Que mal há em ter histórias pra contar ... ♫♪

ana lú disse...

As diferenças neste mundo são enormes mesmo. Ainda mais com a questão que você levantou, gostar e gostar.
Mas há um momento onde tudo satura, depois evapora... mas antes disso se mistura, se confude, muda de cor.
Pe tudo confuso, esquisito...!

Atitudes como abrir o peito e mostrar os sentimentos para "alheios" tá fora de moda, hahaha!
Mas super recomendo :)